A quem interessa o outubro rosa?

Posted on 4 de outubro de 2013

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Encontrei um nódulo na mama direita aos 17 anos de idade. Fiz o autoexame no banho porque tinha ouvido muitas vezes como essa prática era importante e quase morri de susto quando encontrei uma bolinha. Enrolada na toalha, sai pela casa procurando minha mãe pra perguntar se era mesmo um caroço. Ela também se assustou e corremos para o médico. Médico, ultrassom, outro médico, outro ultrassom, mamotomia. Com MUITA, MUITA ansiedade, medo, pânico e terror a cada procedimento e nos intervalos.

Para quem nunca ouviu falar em mamotomia, trata-se de um procedimento “pouco invasivo” (faz-me rir) que permite coletar material do nódulo para a biópsia e descobrir se ele é benigno ou maligno. Passam uma pomadinha pra anestesiar a pele, depois enfiam uma agulha fininha no seu peito pra dar anestesia local, depois ficam passando aquela coisa do ultrassom com força pra poder ver bem o nódulo e enfiam uma agulhona no peito que vai cortando e sugando pedacinhos do nódulo. Sinceramente, achei bem invasivo. E doeu bastante. E fiquei com uma pequena cicatriz. E quase enlouqueci durante a semana em que esperava o resultado da biopsia. Ah, esqueci de mencionar o questionário que respondi antes do exame! Dentre outras pérolas, me perguntaram se eu JÁ fazia quimio ou radioterapia. Eu, sempre fofa (só que não), respondi que AINDA não fazia. Foram dias terríveis em que eu pensava no meu câncer precoce e usava protetor solar pra não ter câncer de pele, afinal, eu já tinha câncer de mama. Exageros meus a parte, saiu o resultado: fibroadenoma juvenil. Volto ao médico e recebo a feliz notícia de que estava tudo bem e o nódulo era benigno. Ufa! Ainda bem que não era nada!

Com o passar dos anos me perguntei muitas vezes o que tinha sido aquele “nada”. Eu deveria agradecer às campanhas pelo autoexame, à medicina e à tecnologia por ter me livrado do perigo? Mesmo que eu não estivesse em perigo? E a pergunta central, na minha opinião, nenhum médico fazia. Por que, afinal, meu corpo produziu aquele nódulo? Sozinha, conclui que tinha a ver com o modo como vivi a morte do meu pai. Fui pra terapia, comecei a exercitar o “colocar pra fora” e achei que tinha me livrado dos nódulos.

Três filhos depois, decido ligar trompas. Vou a um médico que pede uma série de exames de rotina, dentre os quais, um ultrassom de mama. Voilà! Outro nódulo! Dessa vez na mama esquerda. Demoro quinze dias pra buscar o resultado do exame e mais quinze dias pra tirá-lo da bolsa. Peço pra Bruna (enteada, amiga querida, e médica) pra dar uma olhada no exame pra mim. Ela arregala o olho depois de ver a tal da birads 4. Pelo que eu entendi, classificam os nódulos de 1 a 5 quanto à aparência de câncer: 1 significa “relaxa que não é câncer” e 5 significa “grandes chances de ser câncer”. O meu ganhou 4 estrelinhas. Será que esse ultrassom foi bem feito? O médico considerou que ainda amamento? Melhor procurar um mastologista e repetir o exame.

Botão de pânico acionado mais uma vez. Marca com o mastologista, outra consulta, outro ultrassom, outro diagnóstico com 4 estrelinhas, mamografia e… outro pedido de biópsia! PQP! De novo? Além da sensação de que minha vida sempre tem interrupções bruscas, cresceu um sentimento de indignação por estar passando por aquilo de novo. Eu não tenho nenhum outro sintoma além do caroço. Não há histórico de câncer de mama na minha família. Minha mãe e minha avó já tiraram nódulos do peito. E eu SEI que não estou com câncer. Eu sei que está tudo bem. Eu sei.

Só de pensar na angústia toda de novo, na logística para lidar com trabalho, filhos e exames, no preço da tal da biópsia (porque gasto uma baba de plano de saúde, mas ele não cobre um médico “confiável”) já devo ter causado muito mal ao meu corpo! Passei por uma consulta espiritual, por uma sessão de acupuntura, por uma sessão de terapia e por conversas com muitas amigas e decidi que não vou fazer biopsia agora. Vou pra um tratamento com florais e acupuntura durante 3 meses, e aí repito o ultrassom. A ideia, na medicina tradicional chinesa, é reequilibrar o corpo para não produzir mais nódulos e, quem sabe, diluir esse carocinho. Vou pra segunda sessão de acupuntura na semana que vem, confiante que em 3 meses não vou ter mais nenhum nódulo. Mas, se ele estiver aqui, lá vou eu pra outra biopsia e pra outro diagnóstico de fibroadenoma. Pra sair com aquele alívio “ufa! ainda bem que não era nada”.

Isso tudo entre setembro e o início de outubro, quando começa o  Outubro Rosa. Segundo a Bruna Silveira e a Simone Rocha, médicas de família e comunidade e amigas em quem confio plenamente, diversas evidências científicas  apontam que muitas mulheres que terão um positivo na mamografia (tipo eu) não desenvolveriam a doença (tipo eu), ou a doença não causaria sua morte. Os efeitos dessa quantidade de exames podem ser mais prejudiciais que benéficos se a gente pensar na angústia e nos gastos que eles geram.

Não seria melhor, então, só indicar ultrassom de mama e mamografia pra quem de fato é paciente de risco? Autoexame em todas as mulheres interessa a quem?

Só consigo pensar na indústria médica, dos diagnósticos e dos medicamentos se beneficiando com tanto diagnóstico de nódulo de mama…

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