Posso sobreviver ao pós-parto?

Posted on 21 de outubro de 2012

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Se você não é mãe, ou já esqueceu dessa fase, acredite: o pós-parto é muito difícil! O corpo, a cabeça e o espírito precisam se recuperar de um longo período de mudanças bruscas que ocorreram na gestação e de um parto muitas vezes violento. Isso, enquanto você tem um recém-nascido pra amamentar, cuidar, trocar, banhar, ensolarar, amar, se acostumar. Algumas vezes, tendo que lidar com outros filhos, com um marido, com uma mãe, irmãos e todo o resto do mundo que não consegue te deixar em paz. Pra mim, o melhor que pode acontecer no pós-parto é ele passar rápido, com mãe e bebê respirando sem a ajuda de aparelhos. Mas, quando se está no pós-parto, ele demooooora pra passar. E nunca se sabe, no início do dia, se você vai conseguir fazer cocô na hora que tiver vontade, comer quando tiver fome, tomar água quando tiver sede ou qualquer outro desejo sofisticado desses.

Com o meu primeiro filho, há quatro anos, eu descobri um jeito de passar mais rapidamente pelo pós-parto, ganhando até alguns dias de felicidade: fazer outras coisas além de trocar fralda e amamentar. Eu caminhava, ia ao parque, fazia compras, cozinhava, encontrava amigos na rua, assistia filmes no cinema (viva o Cinematerna!) No segundo, fui a um congresso em Caxambu quando ele tinha oito dias e voltei a trabalhar em seguida, sempre com o bebê no sling, respeitando o ritmo dele e foi MUITO melhor que o primeiro pós-parto. Agora, vivendo essa fase pela terceira vez, vou vivendo os dias com a certeza de que em alguns chove e em outros faz sol. Sem desespero.

Hoje, sai de São Paulo num vôo pra Recife e depois peguei uma van até Porto de Galinhas, de onde resolvi escrever. Foram umas oito horas da porta da minha casa até a porta do hotel. A Cecília dormiu ou mamou o tempo todo, numa serenidade deliciosa, e eu estaria ótima se não tivesse ouvido tantas perguntas em tom acusatório de tantas pessoas.

Tem um bebê aí nesse pano?

Mas não machuca as costas ficar dobradinho assim?

E a perninha?

Quanto tempo tem?

Mas não é muito cedo pra sair de casa?

Seu marido deixou você viajar?

Não tem ninguém junto pra te ajudar?

De onde você é? De fora do Brasil? Mas mora fora?

Ela não chora?

Esse ar-condicionado não faz mal?

Seu pediatra sabe que você viajou com ela?

E os pontos?

Não foi cesárea?

Mas parto normal não tem pontos?

Você pode pegar tanto peso?

Não é perigoso?

Pode comer camarão amamentando?

Como você vai fazer pra dar o curso se tem esse bebê?

Multiplique essas perguntas pelo número de pessoas que transitam pela avenida Paulista às 13h de uma segunda-feira. Tá, não é esse o número, mas a sensação é essa. Eu tentei responder algumas vezes, outras ignorei, em outras fui irônica em duas grosseira. E foi nascendo uma tristeza, crescendo uma indignação e uma vontade de responder que eu só estou tentando sobreviver ao pós-parto, só isso. Se pra algumas ficar em casa com o bebê é bom, pra mim é melhor vir à Anped. Posso? E sem responder a nenhuma acusação?

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