Relato de pré-parto ou Tentando me convencer de que vou parir em casa dessa vez

Posted on 30 de agosto de 2012

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Daqui 30 minutos completo 35 semanas e 5 dias de gestação. É a terceira vez que fico grávida. E a terceira vez que planejo um parto em casa. Da primeira, entrei em trabalho de parto com 36 semanas e dois dias, e o parto domiciliar na primeira gestação é considerado fator de risco até 37 semanas. Tive um ótimo parto natural hospitalar relatado aqui. Antes do segundo parto, estava combinado com a obstetra, a parteira e o pediatra: se entrasse em trabalho de parto com 36 semanas ficaria em casa, já que o primeiro bebê nasceu ótimo! Mas, além de prematuro (com 36 semanas e 2 dias mais uma vez), o bebê estava sentado; prematuro e pélvico… dois fatores de risco… Parto natural hospitalar excelente mais uma vez, devidamente relatado.

Como agora, na terceira gestação, planejar um parto domiciliar? De novo, o combinado é ficar em casa pra ter o nenê a partir das 36 semanas. Uma parte de mim acredita que finalmente vou parir em casa. E outra parte (bem grande por sinal) fica esperando o motivo pra ter que correr mais uma vez pro São Luiz. E só de pensar nessa possibilidade eu começo a chorar.

Há duas semanas senti algumas contrações. Bem irregulares, na verdade. Em tudo o que ouço e leio não configura trabalho de parto. Mas como nunca tive contração regular e meu primeiro trabalho de parto ativo durou 4 horas, e o segundo 2 horas, não tenho a opção de bobear. Corri pro hospital, pra ver o que estava acontecendo. Contrariando a opinião do o Samadeu (meu companheiro e pai desse monte de filhos), que queria ir mais uma vez pro São Luiz, eu insisti em ir pro HU. (Pedi demissão de um emprego no início da gravidez e perdi o plano de saúde… no novo plano o parto tem carência de 10 meses, então parto no hospital particular só pagando. Mas nem vou demorar muito nesse parêntesis). No HU o médico fez exame de toque e percebeu meu colo fechadinho. Mas com dois partos prematuros anteriores, a recomendação foi de repouso absoluto e acompanhamento de gravidez de alto risco no HC. Até pensei em seguir nessa loucura, mas fui lembrada pela minha parteira querida (a Ana Cris) de que está tudo bem. Ficar quietinha em casa é o bastante.

Por uma semana fiquei em casa deitada e quase pirei. Tentei trabalhar no computador e no telefone e percebi que pior do que caminhar ou fazer esforço físico leve, estava sendo me concentrar. A melhor decisão foi parar de trabalhar e não forçar a cabeça ou as emoções. Mas toda noite, antes de dormir, sinto contrações cada vez mais fortes e fico apavorada. Tem dia que desespero e começo a chorar. Tem dia que durmo rápido pra não surtar.

Ao falar dessa angústia com minha obstetra (Andrea Campos), ela recomendou um remedinho antroposófico, pra ajudar no alívio da tensão e da angústia. Comecei a tomar ontem. E, talvez pelo efeito certeiro, hoje comecei a perceber como estou tensa, preocupada e distante de qualquer sensação boa que a gravidez pode ter. E isso não está certo!

Ontem, escrevi pra Marcella que estava angustiada. Hoje de tarde esbocei uma conversa com a Dani, dividindo que estou preocupada com o parto. E passei o dia todo ruminando as sensações todas… Do que tenho tanto medo? Se meus dois filhos nasceram com saúde excelente e os partos no hospital foram naturais e sem as famigeradas intervenções? Medo de frustrar expectativas…

Por mais que eu tivesse planejado os partos anteriores em casa, eu não estava, exatamente, na minha casa. Quando engravidei do Lucas fui morar no apartamento onde o Sergio já vivia e isso nunca foi tranquilo. Por mais que tenha feito reforma, mexido e remexido tudo, nunca senti que lá era minha casa de verdade. E na terceira gravidez, esperando a Cecília, nós finalmente nos mudamos pra nossa casa, escolhida e arrumada pelos dois, onde estamos muito felizes. E nessa casa tão legal, na minha casa, eu quero ainda mais ter um parto em casa!

Na gravidez do Lucas, a primeira, eu imaginei 18 horas de trabalho de parto, no mínimo. Dos muitos relatos que li, busquei inspiração pra planejar o que eu faria antes de receber o pequeno: caminhar no parque, tomar um capuccino na esquina, rezar, cantar, tomar mil banhos. Na segunda, do Pedro, estava deixando rolar sem muitos planos. E na terceira, só sentia a angústia de ter que pegar uma mala e sair correndo pro hospital no meio das contrações; lidar com as caras de susto no hospital por chegar em pleno trabalho de parto (porque as pessoas estampam na cara como acham aquilo anormal); ter que responder a mil perguntas de uma enfermeira desconhecida enquanto tudo o que eu gostaria era de ficar quieta e me concentrar no momento; lidar com a maca dura e a parede laminada da sala de parto (porque nem sala de parto normal pude usar); aguentar comentários grosseiros de profissionais que não respeitam minha escolha em parir de maneira natural; ter que ficar sozinha pouco depois do bebê nascer, afinal, o acompanhante é expulso uma hora e a equipe do parto natural precisa voltar pra casa; brigar com as enfermeiras pra ficar um pouco mais com o meu filho antes de o levarem “rapidinho” pro berçário; implorar, a cada cinco minutos, pra trazerem meu filho de volta porque esse foi o combinado com a equipe que me atendeu; ir pro quarto sem o bebê e ficar esperando a boa vontade de o trazerem; precisar brigar e falar grosso pra me devolverem meu filho; aguentar o espanto de cada enfermeira que entra no quarto por ter tido um parto normal e querer ficar com o bebê no quarto… Sem falar na briga pela amamentação que vivi depois do primeiro parto. Eu passei por toda essa chatice duas vezes. Meus filhos ficaram ótimos e eu também. Mas foi chato. Não quero de novo. Quero ficar na minha casa, no meu tempo, com as pessoas de quem eu gosto e com a minha filha recém-nascida no colo o quanto nós duas quisermos, sem ter que brigar com ninguém. Só isso. E tudo isso.

Decidi escrever esse relato de pré-parto agora, pra elaborar melhor essa confusão interna. E pra assumir que se eu entrar em trabalho de parto agora, 0h02 do dia 30 de agosto (35 semanas e 5 dias) EU NÃO VOU PRO HOSPITAL!!!!!!!!! Vou parir a Cecília aqui, na minha casa, com o Lucas, o Pedro e o Sergio por perto (e minha mãe, a Dani, a Bruna, a parteira e a pediatra se elas tiverem tempo de chegar :P)

Preciso barrar o medo e acreditar que vai dar certo. E daqui algum tempo vou escrever meu relato de parto domiciliar. Pra me convencer, vou espalhar pela casa toda um trecho do vídeo de uma parteira mexicana, Naolí Vinaver, que pariu lindamente em sua casa, acompanhada do marido e dos dois filhos pequenos:

“Mulheres dando à luz, se elas forem deixadas em paz, elas sabem exatamente o que fazer. As mulheres têm dentro de si a sabedoria de como se mover, quando empurrar e como empurrar. Aquele corpo que criou o bebê sabe exatamente como expulsá-lo de dentro de si e dar à luz.”

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