Por que só o software precisa ser livre?

Posted on 21 de janeiro de 2012

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Abri o publicador para escrever sobre o terceiro dia com a Bela. Mas enrolei, respondi e-mails, enrolei, xeretei o Facebook, enrolei e decidi mudar o tema do post. Principalmente porque ouvi uma pergunta irônica ontem que mexeu com uma questão interna importante. “Fazendo autopromoção?” OK, racionalmente eu sei que foi uma brincadeira babaca e que eu poderia passar por ela sem nem lembrar. Mas não é o caso… Escrevo desde criança sobre coisas alheias a mim. Estudei jornalismo e adorava escrever reportagens que traziam a voz de outras pessoas. Quando tive um blog sobre maternidade no Planeta Sustentável, falava da gravidez, do bebê, do parto, da alta taxa de cesarianas no Brasil, mas raramente falava de mim. O mesmo vale pros outros blogs com os quais colaborei ou colaboro: dos Ministério da Cultura, do Porto, do projeto REA

Se alguém chegar até aqui, saiba que vou tentar não amolar muito com as reflexões de por que tenho tanta dificuldade pessoal em escrever o que penso, o que faço, o que sinto. É um misto de negar a história individual (apesar de AMAR ler biografias) e uma culpa cristã (de não ser vaidosa, será?) que ainda carrego. Tem problema de autoestima também? Claro que sim! Mas me sinto melhor em escrever sobre a questão social que mais me pega hoje: o machismo.

Tenho o privilégio de conviver com homens e mulheres inteligentes, sensíveis, preocupados com as outras pessoas e em construir um mundo melhor para todos. Mas, na maior parte das vezes, sinto muito falta de ver a construção de um mundo melhor para todos e TODAS. Ressalva essencial para agradecer à Tica Moreno, à Daniela Silva, ao Pedro Markun, à Maria Lúcia da Silveira e ao Gustavo Aniteli que tanto me ensinam sobre a desigualdade entre os gêneros e a importância do feminismo. Mas a pergunta “Fazendo autopromoção?” de um cara inteligente, engajado, admirável, que eu amo, me apresenta mais uma camada de como é difícil ser mulher. Por que eu não posso falar sobre mim? Por que não posso comemorar o passo interno (enorme) de comprar uma bicicleta, sair pedalando por aí e vender o carro? Isso não interessa a ninguém? E mesmo se não interessar, eu não posso escrever por mim? Por que isso seria autopromoção? E se fosse, qual era o problema? Estou fazendo mal a alguém? Não somos livres para falar qualquer coisa?

E aí lembro de tantas e tantas histórias que tem a ver com essa. Em que a cultura precisa ser livre, o software precisa ser livre, mas as mulheres não. Peço licença à Daniela Silva para contar uma história bem recente (apesar de ter uma coleção delas) e expor um pedaço do debate que apareceu na lista aberta da Transparência Hacker. Tudo começou com um motivo excelente, que resultou na excelente capa da Folhateen da semana passada, com a voz e a fotografia da também excelente Lívia Amorim:

A Dani recebeu o e-mail do editor da Folha e repassou para a lista. Quem quiser, pode ler a história toda, aqui publico minha edição.

O cara explicava: ” (…) Estou apurando uma reportagem sobre garotas hackers, aproveitando o gancho do lançamento de logo mais do filme baseado na série Millwnium, que tem a Lisbeth Salander. Gostaria de falar com garotas brasileiras que são hackers. Coisa simples. Entender porque fazem, como é o cotidiano, como entraram na atividade etc (…)”.

Cinco pessoas responderam e a conversa rolava bem até que um cara (gente-boa, inteligente, ativista do Software Livre e muitos outros adjetivos positivos) cagou: “Se a menina, qqr que seja e para variar, estah querendo ser desejada:  http://www.orkut.com/Community?cmm=1921“.

A resposta da Dani não podia ser melhor: “Adoro a capacidade que algumas pessoas em comunidades hacker têm de produzir novos olhares sobre as coisas, quebrar tabus e preconceitos, e assim conquistar para todo o mundo a liberdade que elas pregam para o software. Afinal, falar em “toda e qualquer mulher + escolha seu complemento” é tãããão século 15… #ironia”.

Minha revolta seria menor se a conversa tivesse parado aí. Mas ele continuou: “:* alias, vc usa linux, neh Dani? 😉 ”

A Dani usa Linux. Eu uso Linux. Muitas mulheres usam Linux. E essa é uma decisão POLÍTICA e/ou TÉCNICA das mulheres, assim como é uma decisão POLÍTICA e/ou TÉCNICA dos homens.

O objetivo primeiro de qualquer mulher é ser desejada. E falar de si mesma é autopromoção. Se essa é a visão sobre as mulheres na bolha da liberdade, da colaboração e da transformação do mundo, o que eu estou fazendo nela? E pra onde posso ir?

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